Toxidermias em Oncologia: sessão clínica com a Dra. Ellene Papazis no Porto
- Ellene Papazis
- há 4 dias
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No dia 1 de março de 2025, realizou-se uma sessão clínica sobre toxidermias no Hotel Mercure Porto, na cidade de Gaia. O encontro foi conduzido pela Dra. Ellene Papazis, dermatovenerologista integrante da equipa do Instituto Português de Oncologia (IPO Porto). O evento reuniu cerca de 50 profissionais da área da saúde da zona Norte, num encontro marcado pela partilha de experiências clínicas e conhecimento actualizado.
A Dra. Ellene Papazis formou-se em Dermatologia no tradicional Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay, no Rio de Janeiro, onde concluiu a sua especialização em dermatovenerologia. Posteriormente, realizou uma subespecialização em Dermatologia Oncológica no Instituto Nacional de Câncer (INCA), com ênfase nas manifestações cutâneas associadas à terapêutica do cancro. Com mais de 15 anos de actuação clínica, consolidou-se como uma referência em toxicidade cutânea associada ao tratamento oncológico.
O que são toxidermias?
As toxidermias em oncologia — também chamadas de reacções adversas cutâneas medicamentosas — são manifestações na pele, mucosas, cabelo ou unhas causadas pela acção tóxica ou imunomediada de medicamentos. No contexto oncológico, estas reacções são particularmente relevantes devido à potência e complexidade das terapias utilizadas, como quimioterapia, imunoterapia, terapias alvo e radioterapia (Cury-Martins et al., 2020; Criado et al., 2010a).
As toxidermias podem incluir:
- Xerose (pele seca) e prurido, que afetam a barreira cutânea e provocam desconforto contínuo;
- Síndrome mão-pé (eritrodisestesia palmo-plantar), comum em pacientes a tomar capecitabina ou sorafenibe;
- Erupções acneiformes, frequentes com inibidores do receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR);
- Alopecia induzida por quimioterapia, uma das manifestações mais visíveis e com impacto psicológico elevado (Wikramanayake et al., 2020; Moreno-Arrones et al., 2017);- Alterações ungueais, que vão desde descolorações a onicólise dolorosa (Emvalomati et al., 2023).
A frequência e gravidade destas reacções variam conforme o tipo de fármaco, dose e predisposição individual. No entanto, estudos recentes apontam que até 40% dos pacientes em terapia oncológica desenvolvem algum grau de toxicidade cutânea (Zhang et al., 2023). Além disso, muitas destas reacções parecem estar associadas a melhor resposta tumoral (Venturi et al., 2024), o que aumenta a responsabilidade do dermatologista em manter o equilíbrio entre eficácia oncológica e qualidade de vida do doente.
A radiodermite, por exemplo, pode ocorrer em mais de 80% dos pacientes com cancro da cabeça e pescoço submetidos a radioterapia (Tsai et al., 2023). Estudos demonstram que cuidados com hidratação tópica e vigilância clínica reduzem a sua severidade e evitam a interrupção da terapêutica.
É importante destacar que o reconhecimento precoce e a actuação multidisciplinar são fundamentais para evitar complicações graves, como infeções secundárias, dor intensa ou até a suspensão do tratamento oncológico (Naidoo et al., 2015; Jade Cury-Martins et al., 2020).
Compromisso com a educação e a qualidade de vida
A sessão liderada pela Dra. Ellene Papazis destacou não apenas os aspectos clínicos das toxidermias, mas também estratégias práticas de prevenção e intervenção precoce. A abordagem dermato-oncológica integrada, que considera o impacto físico e emocional das manifestações cutâneas, é essencial para garantir que o paciente possa prosseguir o tratamento oncológico com segurança e dignidade.
Referências bibliográficas
Cury-Martins, J., Eris, A. P. M., Abdalla, C. M. Z., Silva, G. B., Moura, V. P. T., & Sanches, J. A. (2020). Manejo dos eventos adversos dermatológicos das terapias oncológicas: Recomendações de um painel de especialistas. Anais Brasileiros de Dermatologia, 95(2), 221–237. https://doi.org/10.1016/j.abd.2020.01.001
Criado, P. R., et al. (2010a). Reações tegumentares adversas relacionadas aos agentes antineoplásicos – Parte I. Anais Brasileiros de Dermatologia, 85(4), 425–437.
Emvalomati, A., et al. (2023). Narrative Review of Drug-Associated Nail Toxicities in Oncologic Patients. Dermatology: Practical & Conceptual, 13(1), e2023064. https://doi.org/10.5826/dpc.1301a64
Moreno-Arrones, O. M., Saceda-Corralo, D., & Vañó-Galván, S. (2017). Enfriamiento del cuero cabelludo. Actas Dermo-Sifiliográficas, 108(10), 945–946.
Naidoo, J., et al. (2015). Toxicities of the anti-PD-1 and anti-PD-L1 immune checkpoint antibodies. Annals of Oncology, 26(12), 2375–2391. https://doi.org/10.1093/annonc/mdv383
Tsai, P. C., et al. (2023). Clinical effect of moisturized skin care on radiation dermatitis. In Vivo, 37, 2776–2785. https://doi.org/10.21873/invivo.13389
Venturi, F., Veronesi, G., Scotti, B., & Dika, E. (2024). Cutaneous Toxicities of Advanced Treatment for Cutaneous Melanoma: A Prospective Study. Cancers, 16(3679). https://doi.org/10.3390/cancers16213679
Wikramanayake, T. C., et al. (2020). Alopecia in Cancer Patients. Journal of Clinical Aesthetic Dermatology, 13(6), 12–20.
Zhang, S., et al. (2023). Cutaneous immune-related adverse events are associated with longer overall survival. Journal of the American Academy of Dermatology, 88(5), 1024–1032. https://doi.org/10.1016/j.jaad.2022.12.048
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